HOMENAGEM

PATRÍCIA FERREIRA PARÁ YXAPY

A mostra em homenagem a Patrícia Ferreira Pará Yxapy reúne o acervo de sua trajetória audiovisual nos últimos 15 anos, sempre em estreita colaboração com o Coletivo de Cinema Mbyá-Guarani. A cineasta iniciou a sua carreira em 2008, a partir de oficinas do projeto Vídeo nas Aldeias, que impulsiona o audiovisual em aldeias indígenas de todo Brasil, desde 1986.

 

“Sempre tive curiosidade pelas histórias das nossas mulheres e seu trabalho. Achei perfeito me aproximar delas com essa outra ferramenta que não tínhamos”, conta a cineasta.

A partir da sua autoria, questiona através do cinema a colonialidade do pensamento no âmbito do saber e do ser, da política, economia, religião, gênero, sexualidade e etnicidade, reivindicando sua autonomia como sujeita histórica, que por meio da autoimagem exerce o poder da representatividade e do que se deseja mostrar. 

“Desde o começo da colonização, estamos lutando contra a destruição do meio ambiente, contra o genocídio e o etnocídio. As ameaças e as falas de ódio, principalmente do atual governo, estão promovendo uma maior violência contra os povos indígenas, assassinando nossas lideranças, invadindo as nossas terras”, declara Patrícia.

A partir de cosmologias plurais, o pensar e fazer junto são aspectos indissociáveis dos povos indígenas. Desse modo, a autoria de uma individualidade coletiva no cinema amplifica a esfera articuladora de redes entre modos de vidas e valores distintos, comunitário e citadino, tradicionais e os da modernidade, aproximando-se, ainda, do slogan feminista “o pessoal é político”.

Uma subversão notória às “ordens impostas” pelo tecnicismo ocidental é revelada nesse fazer audiovisual que se lança à desconstrução das etapas em busca de uma criação livre: não há argumento inicial, tampouco roteiro. O cinema-processo, é dilatado. O tempo vive a duração do plano, qualquer pessoa pode fabular e ser personagem. Uma maneira inventiva de fazer cinema que elevam o enfrentamento político e cultural. 

“Se eu mostrar um filme bonito e coisas bonitas dos guaranis eu vou mudar a cabeça dos ruralistas? Eu mudo?” – questiona Patrícia.

A câmera, mesmo que seja de um telefone celular, é uma arma poderosa na disputa de alteridades, um recurso cada vez mais necessário à luta dos povos indígenas, autoimagens fundamentais à manutenção de suas tradições e de combate aos estereótipos. Nesse sentido, a cineasta Mbyá-Guarani revela o motivo que a levou a ser cineasta:

“Para pensar e refletir sobre a nossa própria história. E assim, quebrar um pouco aquelas coisas-ruins que a gente escuta por aí das pessoas ignorantes que falam com seus comentários ou críticas preconceituosas quando a questão é indígena. Uma ideia que a maioria dos não-indígenas tem sobre nós é que o índio é uma coisa só, compartilhando a mesma cultura, as mesmas crenças, a mesma língua, enfim… E aí vem estas frases mais famosas… “ainda são” e os que “não são mais”, “muita terra para pouco índio”, “índio verdadeiro”, “o índio sem roupa, na selva, em plena harmonia com a natureza”, o “índio autêntico” é o índio de papel da carta do Caminha. Essa imagem foi congelada, na cabeça dessas pessoas e, quando o índio não se enquadra nessa imagem, quando aquele índio que está hoje no meio das cidades seja para estudar, trabalhar, reivindicar os direitos ou simplesmente sair da aldeia para comprar as suas necessidades, provoca estranhamento.”

A utilização e reinvenção da linguagem audiovisual para suas próprias narrativas é poder. Poder como possibilidade da autoridade de agir e falar. Poder da invenção, produto da experiência coletiva. Poder para as mulheres indígenas e suas demandas políticas e estéticas que, para além das demandas individuais facilmente cooptadas pelo capitalismo, revelam ser as lutas coletivas a verdadeira ameaça às reproduções das opressões, aproximando-nos, de fato, da liberdade. 

A linguagem artística e cinematográfica de Patrícia Ferreira Pará Yxapy possibilita narrativas híbridas de potentes histórias autobiográficas e apropriadas de seus discursos, mostrando-nos filmes indissociáveis às práticas da vida cosmológica, questões de gênero e do feminismo comunitário, na criação de outros imaginários possíveis e um processo de ruptura ao revelar que fazer cinema é fazer-se em multiplicidade e segredos.*

* Texto editado do artigo original A imagem como arma – o cinema feito por mulheres indígenas, de Sophia Pinheiro, pensadora visual, interessada nas poéticas e políticas visuais, etnografia das ideias, do corpo e marcadores da diferença, principalmente em contextos étnicos, gênero e sexualidade. Doutoranda em Cinema e Audiovisual do PPGCine-UFF.


 

FILMOGRAFIA:

Bicicletas de Nhanderu (46’, 2011)
Coletivo de Cinema Mbya-Guarani

Assista aqui

Desterro Guarani  (38’ 2012)
Coletivo de Cinema Mbya-Guarani 

Assista aqui

Tava: A casa de pedra  (78', 2013)
de Patrícia Ferreira
Pará  Yxapy,  Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Ariel Ortega
Assista aqui

Mbya-Mirim (23’, 2014)
Coletivo de Cinema Mbya-Guarani

Assista aqui

No caminho com Mario (20’, 2018)
Coletivo de Cinema Mbya-Guarani

Assista aqui

Teko Haxy (45’, 2018)
de Patrícia Ferreira
Pará  Yxapy e Sophia Pinheiro
Assista aqui

Nova Iorque, mais uma cidade  (18’, 2020)
de André Lopes e Joana Brandão , com Patrícia Ferreira Pará  Yxapy

Assista aqui

Nhemongueta Kunhã Mbaraete
Patrícia Ferreira
Pará  Yxapy (RS), Michele Kaiowá (MS), Graciela Guarani (PE) e Sophia Pinheiro (GO) Vídeo-cartas, 2020.

Conversas n.1 (44’): 

Assista aqui

Conversas n.2 (52’):
Assista aqui


Conversas n.3 (53’):
Assista aqui


Conversas n.4 (53’):
Assista aqui

ASSINE A NOSSA
NEWSLETTER

SEU E-MAIL

APOIO

PARCERIA

REALIZAÇÃO